Publicado por: BVox | agosto 17, 2012

Porque NÃO imigrar para o Quebec – Parte 2

Continuando o post anterior…

2) O Separatismo

Que fique claro: o separatismo não é algo tão importante ou consensual quanto a defesa do francês por aqui. Enquanto acho que é seguro dizer que a grande maioria (os francófonos são 92% da população) tem o francês como algo sagrado (e uma boa parte leva isso a níveis paranoicos como no post anterior), mas nem todos apoiam o separatismo (40% da última vez que ouvi). Também ouço falar que cada dia que passa menos gente dá importância ao separatismo e nunca ouvi ninguém dizer o contrário.

De qualquer forma, não acho que a possibilidade do Quebec se separar do Canadá esteja diminuindo, porque:

a)Os separatistas vão mais as urnas. Eles são geralmente mais velhos e também mais engajados. Quem está confortável com o Quebec como parte do Canadá não dá nem bola para política. Portanto, de novo os votos não necessariamente refletem as pesquisas de opinião sobre separatismo. O problema é que também ouvi dizer que por alguma razão obscura, 40% é o que é necessário para se formar um governo majóritário no Quebéc (ou seja, passar a lei que quiser no parlamento da província). Se bem que num plebiscito a participação é diferente.

b) Cada vez que um governo separatista sobe ao poder, ele implementa alguma medida que aumenta a independência do Quebéc. Por exemplo, o Quebéc tem sua própria constituição e sistema de licença maternidade. O Parti Quebecois já falou que vai “repatriar” o sistema de saúde e acho que ouvi algo sobre seguro desemprego também. Como nenhum governo federalista tem cacife suficiente para desfazer o que foi feito, acho que em algum ponto, o efeito acumulado destas duplicações vai não só tornar mais fácil a separação como pode até fazer ela se tornar a alternativa mais eficiente do ponto de vista econômico. Quero dizer, o custo de manter estruturas duplicadas nos níveis federais e provincial é alto. Como não vejo clima para desfazer a estrutura no nível provincial, do ponto de vista de eficiência, talvez a situação atinja um ponto em que separar seja mais a alternativa mais eficiente dentre as disponíveis.

c) O último plebiscito de separação do Quebec deu na trave. O “não” ganhou por pouco mais de 1% e do jeito que os eleitores daqui mudam de idéia rapidamente (o PQ passou de um partido forte para um quase morto depois das eleições federais de 2011, só para virar o favorito nas eleições de 2012), não dá para prever o que pode acontecer se um plebiscito for chamado. Se o PQ for eleito acho que vão chamar um plebiscito cedo ou tarde já que como disse em outro post, há uma espécie de consenso de a rejeição ao governo conservador no nível federal está aumentando o suporte ao separatismo.

Não acho que nenhum imigrante (talvez com exceção dos francófonos) achem o plebiscito uma boa ideia. Acho que a grande maioria vai fugir para o Canadá como nós faríamos. Mesmo os índios daqui são contra (96% no plebiscito de 95) e queriam ficar como parte do Canadá e levar grande parte do território com eles. De novo, imigramos para o Canadá, não para um país chamado Quebec. Viemos aqui para dar estabilidade para nossos filhos, não instabilidade.

Só para dar algumas razões, até onde sei, a economia do Quebec está longe de ser classificada como dinâmica. As províncias que estão se dando bem no momento são as que produzem petróleo, como Alberta. Mesmo Ontário, atingida de cheio pela crise de 2008 na indústria automobilística está melhor que aqui, embora o desemprego seja um pouco mais alto que em Quebec. Para mim o que mais pega é que Quebec tem uma grande dívida e não tem se mostrado capaz de a manter sobre controle. Os separatistas também não parecem se incomodar com economia. Como meu professor de francês disse, ele preferia ser dono do próprio nariz e pobre do que ser “dependente” e rico. Ou seja, sem uma indústria forte, alta dívida, um discurso não comprometido com austeridade e tendo que fazer altos investimentos para formar um país, Quebec vai passar por uma bela crise. Hoje Quebec rola a dívida com juros baixos já que desfruta do ranking AAA do Canadá. Se sair, os juros sobem e as parcelas que já não conseguem pagar vão aumentar… Quem vai emprestar para um país que ninguém conhece?

A “sorte” é que a província tem muitos recursos (pelo menos se o território do novo país for o mesmo da província, o que não sei se vai ser verdade) e o que vai acontecer é que podem torrar minérios, energia hidroelétrica, madeira e até um pouco de petróleo para financiar os  sonhos de um novo país.

A história do separatismo torna nosso futuro aqui incerto. Como comprar uma casa, por exemplo se em dois anos o PQ pode ganhar as eleições e um plebiscito separar Quebec? A debandada de gente e de empresas vai pulverizar preços de imóveis. Na verdade, só o plebiscito vai causar quedas nos preços. Isso já ocorreu em menor grau nos dois plebiscitos no passado.

O que acho que o que é pior é que processos de separação realçam o lado ruim das pessoas. O foco é nas coisas negativas. Vota-se na separação porque somos diferentes, porque fomos explorados no passado, porque podemos fazer melhor. É nós contra eles. Vota-se em não separar por medo do que pode acontecer. O clima durante o plebiscito deve ser horrível, com vizinhos e colegas se colocando em campos opostos. Escuto histórias de que nos colégios, as crianças identificavam nos armários se os pais iam votar no Sim ou no Não. Dá para imaginar isso? Como imigrantes são em sua maioria contra a separação, tenho certeza que seremos automaticamente estigmatizados pelos separatistas.

Se a separação ganhar então, tanto o Quebec quanto o Canadá vão passar por uma crise. Embora ache que no Quebec será pior, mesmo o Canadá vai sentir. Nenhum país perde um terço da população e tem seu território dividido em duas porções não contíguas (Quebec separaria as províncias do atlântico de Ontário e das províncias do oeste, se o território do novo país for refletir o da provincia atual) e sai ileso. Daí um lado vai botar culpa no outro, a começar pelos políticos, que adoram um inimigo fácil como esse para permear a agenda e a discussão política.

Depois vem as discussões sobre o espólio, quem fica com o que. O governo federal tem ativos (pontes, edifícios, etc) em Quebec. Vai querer dinheiro por isso. Vai provavelmente querer pegar partes do território de Quebec. Mesmo Montreal pode ser um ponto de discussão, já que é o coração da economia e votou em grande parte para ficar no Canadá. Também tem uma composição cultural diferente. O governo federal pode exigir um plebiscito só para Montreal. Acho que seria como separação de casal rico. A coisa seria feia. No final do processo Quebec e Canadá sairão bem machucados para cada lado e os ressentimentos vão levar gerações para cicatrizar.

O que é mais louco é que em pesquisas de opinião, o que mais preocupa os povo de Quebec é o mesmo que o resto do Canadá: economia e sistema de saúde. Aqui também a questão da corrupção é importante e é a única que se vê sendo discutida na campanha eleitoral. Em pesquisas, defender o francês ou separatismo não são prioridades, mas como então dominam a pauta das eleições?

Para mim são distrações. São problemas fictícios criados pelos políticos porque são fáceis de resolver. Melhorar a economia é difícil mas fechar CEGEP’s em inglês ou chamar um novo plebiscito é fácil…

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Responses

  1. Olá colega! Tudo bem?
    Eu conheci hoje seu blog e o li do começo ao fim (ou do fim ao começo, rs), e gostei muito de saber das suas experiências, impressões e opiniões. Parabéns por sua atitude e experiência de vida.
    Eu também sou de São Paulo, casado, 35 anos, com 2 filhos. Estou estudando francês, e tentarei em breve uma oportunidade de trabalho junto à algumas empresas do meu ramo na região de Montreal, buscando também uma experiência de vida diferenciada no primeiro mundo (temporária ou definitiva, isso somente o tempo dirá).
    A opção pelo Quebec veio em decorrência das facilidades de imigração, além da educação, qualidade de vida, etc. Entretanto, seus relatos sobre o momento político quebequense me deixaram com um pouco de temor, já que também vemos na imigração uma excelente chance de proporcionar um futuro mais estável aos nossos filhos. Nossa família está disposta a utilizar 100% do francês, mas compreendo que certas “tensões” podem surgir com o tempo em relação aos imigrantes.
    Considerando que você escreveu em agosto/2012, como você vê isso atualmente? O Parti Quebecouis promoverá um novo plebiscito? Você sente que isso pode representar um problema a população de fora?
    Agradeço pela sua opinião. Desejo sorte e sucesso em sua jornada.
    Grande abraço.

    • Quanto ao PQ, sim isso já está causando problemas para gente de fora. Depois que escrevi o post acima, o PQ foi eleito com minoria e está pedalando questões de identidade étnica como a Charte des Valeurs. Se vc for muçulmano, judeu ou Sik ortodoxo, terá que mudar suas práticas para conseguir um emprego no governo (incluindo escolas e hospitais). Eu acho uma vergonha só o fato de se ter uma discussão como essa. Daí piorou pq agora o PQ chamou uma nova eleição e pelo jeito vai ser majoritário, graças à Charte. Fiquei realmente deprimido por algumas semanas. Nunca imaginei que um povo poderia ser tão cego, tão fácil de usar suas inseguranças e ser manipulado. Mas isso é o Quebéc. Eternamente discutindo questões irrelevantes e afugentando minorias e negócios.

      Cada caso é um caso, mas eu nunca aconselharia uma família imigrar para o QC. Se vc vier e não gostar, vai ser muito difícil mudar de novo depois dado o impacto nas crianças. A não ser que vc ame a língua francesa de coração ao ponto de achar que a sua defesa deva fazer parte da constituição ao lado de valores e liberdades individuais ou valorize muito sua vida cultural (geralmente não é o caso de quem tem dois filhos pequenos), não deve ser o seu caso. Ottawa por exemplo é uma cidade bonitinha, com casas relativamente baratas, aparentemente sem problemas de infraestrutura e a 2h de Montréal. Muito pouca cultura, é verdade mas dá para fazer um bate-volta para assistir o últimon espetáculo do Cirque du Soleil se quiser.

      É claro que vc sempre pode vir para Mtl para fazer um mestrado (educação relativamente barata até onde sei) e imigrar depois pro lado inglês.

      Note que dependendo do seu ramo (eu diria que para a maioria dos casos), em Montréal vc terá que falar bem o francês mas tb um mínimo de ingles. Então a vantagem de ter que aprender só uma língua (e uma língua latina) é geralmente balela (além do Francês não ser uma língua tão fácil assim, mesmo para nós). Se insistir no QC, considere imigrar para uma cidade menos bilingue se quiser achar emprego mais fácil. Mas isso nem sempre é uma opção dependendo da sua profissão.


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